REFLEXÕES

O luto LGBT transcende gênero e raça; o luto LGBT tem um recorte específico, qual seja: ser LGBT(+). Ser gay, lésbica, bissexual, pansexual, transexual etc. confere uma (in)validação de existência que é anterior a condição de ser negro, branco, pardo, homem, mulher, rico, pobre, religioso ou ateu. Embora gênero e raça sejam recortes validantes no reconhecimento de lutos, ouso dizer que ambos estão longe de ser condição primária para o sofrimento de LGBTs.

 

Homem gay chora?

Homens gays, por exemplo, conforme minha experiência de trocas, não demonstram dificuldade em expressar  sentimentos e em fazer contato com o choro; não parecer ter problema algum em demonstrar fraqueza. Eles não querem ser fortes. Eles querem poder chorar sua dor. O choro deles é carregado de angústia pelo desamparo social. A dor do homem, nesse caso, é uma dor não-reconhecida essencialmente porque ele é um homem gay. Porque, antes de ser visto como homem, ele é visto como uma pessoa gay. E, por mais contraditório que possa parecer, essa é uma condição anterior ao fato de ser homem. É como se dissessem “ele é gay, não temos interesse em amparar gays”. A condição de ser homem, neste caso, é julgada por não ser “homem de verdade”, por não ostentar masculinidade. Quando ouvimos alguém dizer “seja homem, rapaz”, é como se ouvíssemos esse mesmo alguém dizer “seja forte, não chore”. Mas se nessa linha de raciocínio gays não são “homens”, então isso significa que eles estão autorizados a chorar? O homem gay possui uma camada frágil que anula sua condição de ser homem ante uma perspectiva heterocêntrica.

Pode-se entender que, historicamente e socialmente, homens não têm autorização para sofrer. Mas ao se permitirem demonstrar dor e sofrimento, enquanto homens, é possível que eles comecem a dialogar com uma nova forma de masculinidade. Já LGBTs, ao se permitirem demonstrar dor e sofrimento, enquanto LGBTs, dialogam com a validação de uma existência que sempre precisou de permissão para estar no mundo. Homens não precisam de permissão para estar no mundo. Eles simplesmente estão.

O gênero no luto LGBT

No luto LGBT, gênero não é ponto focal; ele é secundário. Ainda que o luto LGBT seja atravessado pela questão de gênero na vivência de pessoas trans, ouso dizer que o gênero segue atuando de maneira secundária, porque, neste caso, há uma implicação considerável acerca da aceitação da transição por parte de uma sociedade cisheteronormativa que independe do favorecimento pelo gênero. Essa pode ser a grande dificuldade de aceitação de pessoas trans, e não a questão do gênero propriamente dito. Porque, a partir do momento em que a pessoa começa a performar outro gênero, ela passa a ser vista como alguém que “virou” algo que não era. O que passa a importar, aos olhos de quem vê e julga, é o que a pessoa deixou de ser, tal como era segundo sua marcação biológica, não importando de qual gênero a pessoa se desfez. Não deixo de contemplar as implicações de gênero no luto de pessoas LGBT+, mas o que estou tentando apontar aqui é que gênero não é o principal fator de atravessamento. A orientação sexual e a identidade de gênero – entendendo aqui a relevância da transição em si –, a meu ver, são os principais fatores de atravessamento. O luto LGBT é, primariamente, um luto identitário; a pessoa LGBT enlutada busca ressignificar seu lugar no mundo a partir de sua própria existência, não a partir de sua perda. Porque a sua perda deflagra a necessidade de olhar para si e dar conta de um luto que precisa de permissão para existir; de dor e sofrimento que precisam de permissão para serem expostos. E isso foi possível de ser entendido em narrativas de escuta compassiva.

É possível considerar uma transformação efetiva de realidade e realidades ao se permitir ser escuta para lutos não-reconhecidos. Escutar é uma forma de ativismo, pois a escuta é uma forma de visibilizar narrativas.